segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Um renascimento

Querido filho, nasceu no dia 15/8/2014 a sua irmãzinha Letícia. Foi o nascimento dela e ao mesmo tempo o meu renascimento. Agora eu tenho um casal. E sei que você será o anjinho da guarda mais lindo que existe para cuidar de todos nós. Obrigado por tudo que eu sei que você nos proporciona.

Seu pai (Sempre!)

Bruno

http://oglobo.globo.com/rio/lider-da-banda-biquini-cavadao-bruno-gouveia-fala-sobre-seus-novos-projetos-13784977


domingo, 16 de fevereiro de 2014

Esperando a Alegria chegar...

Meu filho querido,

Escrevo pra te dizer que você vai ganhar uma irmazinha! Como se você não soubesse, né? Ficar sabendo  disso no dia 24 de Dezembro, aposto que foi travessura sua, seu malandro! Só posso te agradecer mais uma vez por tudo que sinto quando meu pensamento viaja te procurando.

Há muito tempo que não te escrevo por aqui, mas nunca deixei de pensar um dia em você meu filhote. Não foram dias fáceis. Mas saiba que sempre que a força me faltou, surgiu a coragem para superar os problemas. Atribuo isto a você.

Foram muitos percalços até recebermos a notícia que encheu nossa casa e corações de alegria. A tia Bella está grávida de uma menininha! Quando ela nascer, vou lhe contar sobre um anjinho da guarda que a protege sempre. E vamos brincar todos juntos.

Vó Ana sempre conversa contigo, eu sempre te mando um beijinho a cada final de show que faço. Tenho certeza que você os assiste.



Este espaço sempre foi meu refúgio, meu cantinho contigo. Pra cá venho conversar. Eu e Bella sempre temos você em nossas preces. E agora, será a vez de Letícia também. Meu filho, Letícia quer dizer Alegria!!! Que só não é plena porque você não está aqui. Queria tanto ver sua reação ao saber que ganharia uma irmazinha! Tudo bem, não tem problema. Fecho os olhos e imagino. Vejo sua carinha de espanto e alegria. E isto me faz abrir um sorriso enorme.

Ela deve chegar em Agosto. Se nascer no dia 10, o mesmo que o seu, vai ser muita travessura !!! ;-)

beijos de amor eterno. Seu pai. Seu pãe.

Bruno

domingo, 17 de junho de 2012

Aniversário


Que estranho ter uma data para nos lembrarmos que mais um ano se passou sem alguém. Que estranho fechar os olhos e lembrar-me do dia em que me disseram que nunca mais veria meu filho. Não há presentes, somente a ausência. Não há parabéns, apenas condolências. As velas que acendo são para rezar. Ao apagá-las, minha esperança parece ir com elas. 
Hoje completo um ano sem te ver, meu filho, mas você está presente em retratos, fotos, filmes, lembranças, cheiros, frases, risadas. Eu não entendo ainda como pode a vida ser assim: de uma hora para outra, deixa de existir, deixa de estar aqui do meu lado. 
Que estranho aniversário é esse? Por um lado, me alivio em saber que com muita força e amparo, consegui completar um ano sem sua presença. Me lembro que não foi fácil passar por seu aniversário, o meu, o Natal, o Ano Novo, o Dia dos Pais, a Páscoa, sempre me perguntando "onde está você?"
Completar esta fase é concluir que a vida tem que continuar, ao menos a minha. É o fim de um ciclo e começo de outro que talvez seja mais brando. Celebro a chance que tenho, a partir de agora, de me dizer que não estou sofrendo tudo pela primeira vez. Será agora mais um dia, mais um aniversário, mais uma data qualquer sem você, embora acredite que não seja tão fácil assim.
Nesta data sofrida, quanta infelicidade, muitos anos devidos! Me devem seus beijos e abraços, seus palavrões, suas peraltices, sua adolescência, sua formatura, seus amores, meus netos. 
Os dias que antecederam esta data foram recheados de angústia. Me vi reconstituindo cada passo dado, cada momento vivido - os últimos sem você. Minha última conversa por telefone contigo enquanto viajava. Você me pediu para comprar uma van. Eu ri e pensei em trazer uma de brinquedo, claro. Você se despediu de mim dizendo: Papai, eu te amo. Eu te amarei sempre, meu filho. Sempre. 
Reviver tudo isso me fez acreditar que eu seria capaz de impedir que tudo isso ocorresse, que tudo não passaria de um sonho, e que eu acordaria te vendo. Mas não aconteceu. Talvez a vida seja este sonho, que um dia me leve e me desperte, te vendo sorrir pra mim.
Hoje estou aqui com meus amigos, parentes, meu amor, todos unidos em pensamento por aqueles que partiram. Sei que querem que a gente esteja bem. Mas como? Foi então que decidi imaginar este momento como um aniversário do outro lado. Em algum lugar, eles devem estar também dizendo "Faz um ano que viemos para o colo de Deus, faz um ano que nascemos aqui neste lugar". Que melhor presente poderei dar a ele que não seja minha força? Que melhor alegria poderei dar que não seja minha serenidade? É o que busco fazer. Ele agora tem um pai. Aqui e lá. Pai, Filho, Espírito Santo, Amém. 

Espiritualmente falando


Ainda não chegamos a um ano do acidente e o tempo me trai a todo momento. Tem horas em que imagino que foi ontem que tudo aconteceu. Em outros momentos, sinto como se isto fosse uma lembrança longínqua. Em ambos os casos, é a tristeza que me assalta. A ansiedade é grande, o coração dispara à toa, uma sensação esquisita de total impotência. 
Nessas horas, um ansiolítico talvez resolvesse. Prefiro rezar. Faço uma oração e converso com Deus, Nossa Senhora e, sim, Gabriel. Porque tem horas em que os amigos não estão por perto, ou apenas não quero incomodá-los. É nessas horas, em que estou sozinho, que descubro meu lado espiritual e sinto que não estou de fato só. 
Minha formação religiosa sempre foi católica e caótica. Quando criança eu deixava minha avó carola de cabelos em pé com minhas perguntas: "Vovó, e se a Virgem Maria estivesse esperando uma filha? Como se chamaria a criança? Ela teria sido crucificada?". Durante anos eu rezava antes de dormir. Uma Ave Maria, um Pai Nosso, pedia proteção aos meus pais e meu irmão. Fui aumentando a lista cada vez mais: tios, primos, avós, amiguinhos, os pais dos amiguinhos, os personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo… Também passei a dar um beijo no anjinho da guarda que ficava do lado da cama. Ás vezes, dormia rezando. Acordava no meio da noite sobressaltado e cheio de culpa: Nossa! Onde parei? E recomeçava a rezar. Um belo dia, comecei a achar que tamanho ritual que já me tirava quase 20 minutos da noite estava chegando às raias de TOC (transtorno obsessivo  compulsivo) embora não soubesse o que era isso, mas parei de rezar. Ainda acreditava em Deus, mas não me sentia com a incumbência de rezar. Fiz comunhão e me crismei para agradar minha avó que sonhava com isso. Depois, vivi nove anos com uma mulher judia, convivi também com budistas, islâmicos, tentei entender o taoismo, o protestantismo e aceitei todos dentro de mim como uma manifestação de algo superior, sem optar por nenhum específico.
Estava muito tenso com a separação, e não vivia um bom momento com a minha mulher em 2011. Precisávamos discutir judicialmente um monte de termos para que um juiz determinasse nossos direitos e deveres. Não havíamos chegado a um acordo e o jeito era através de advogados. Cada decisão que um tomava, repercutia na vida do outro e, do meu lado, isto me deixava extremamente angustiado. Ao conhecer minha atual mulher, logo notei que ela, diferente de mim, era bem mais religiosa e espiritualizada. Foi ela quem me ensinou a rezar de novo. Primeiro para pedir ajuda, para me acalmar.  Conforme isto foi acontecendo, também passei a rezar para agradecer. Minha vida, minha profissão, meu recomeçar, minha paixão e principalmente, meu filho.
Por isso o levei à igreja para conhecer a "casa do papai do céu", enquanto o cobria de beijos e dizia o quanto era feliz com aquele pinguinho de gente no meu colo. Rezando, encontrei uma capacidade de ser mais paciente comigo mesmo. Passei a entender melhor o caminho que deveria seguir. Teria de aguardar o desfecho da decisão judicial e esperar que o tempo pudesse curar as feridas que toda separação acarreta. Um dia, ambos reconheceríamos o que fizemos de certo, e errado. Acontece que no meio disso tudo, veio o acidente.
Por vezes penso como teria sido minha vida se não tivesse voltado a ter este encontro espiritual. Por vezes penso que minha atual mulher entrou na minha vida para me devolver esta fé, como se estivesse me preparando para o que enfrentaria. Minha primeira pergunta, logo nos primeiros minutos em que soube que meu filho havia morrido foi a mesma que todos que já passaram por isso fizeram: Por Quê? Mas eu logo entendi que esta resposta jamais encontraria aqui e que não me caberia sofrer por ela. E como já havia trabalhado muito meu lado espiritual sem saber o que esperava pela frente, tive de entender e principalmente aceitar. Resignado, assumi que esta é a minha missão, minha história passa por esta página, não há como pulá-la, apagá-la, rasgá-la em mil pedacinhos. Para continuar a viver, eu tenho que permitir-me contar mais histórias pra minha história.  E é nessas horas em que vejo pessoas que passaram pela mesma dor que eu não seguirem. Empacam, tocam a vida como um disco arranhado. Sofrem por não seguir. E tento ajuda-los pois sinto que eu também poderia ser um deles. Graças a Deus - literalmente - não fui. 
Falo com ele todos os dias. Quando digo falo, eu de fato converso mesmo, em voz alta. Às vezes me pergunto se estou ficando louco, mas na verdade eu acredito que é justamente o contrário. Conversando com Gabriel, eu consigo não enlouquecer. Não falo com ele como se estivesse vivo, mas sim, presente. É uma sutil diferença. Não é um amiguinho imaginário, não é alguém que eu vejo e ninguém não, é apenas alguém que me energiza,  que sinto perto de mim, a ponto de falar e acreditar que ele me ouve. E nesta noite, aconteceu. 
Estava muito cansado, fiquei trabalhando até as 4 e meia quando decidi dormir, mas não sem antes rezar. Uma Ave Maria. Um Pai Nosso. E segui dizendo: "Deus, Pai Todo Poderoso, Nossa Senhora e …" antes que pudesse dizer seu nome, de olhos fechados eu o vi. Eu estava de pé vendo-o um pouco abaixo de minha cintura. Um manto azulado, não azul turqueza, mais escuro sim. Sobre o manto e um capuz, como se usasse uma toalha sobre a cabeça após o banho, eu via apenas seu nariz, bochechas, boca, não os olhos. Era ele, só que mais crescido! Balbuciei: "Gabriel! Você?" E torci para vê-lo, mas foi apenas esta visão que tive. A mais linda. Era ele sem sombra de dúvida. Meu cansaço me permitiu entrar num estado de percepção diferente. E, logo depois, adormeci sorrindo.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Os priminhos

Estive nesta semana na Rede Globo e encontrei com Carol, amiga da Fernanda e que trabalhou com ela até o último dia. Foi complicado chegar na portaria 3 do Projac, onde tantas vezes eu a deixei para trabalhar ou pega-la com o Gabriel. No entanto, Carol me trouxe um presente especial: um Cd com fotos que Fernanda havia guardado no computador que eu nunca havia visto antes. Em especial, as que ela tirou de Gabriel junto com seu priminho Luquinha, que também faleceu no acidente. Eles estão bem, não duvido. Ainda mais depois de ver como eles brincavam bem.

Inesquecíveis





Obrigado pelo presente, Carol!

O novo ano

Um ano pra esquecer ou ser eternamente lembrado? Ainda não sei dizer. Um ano pela metade. Depois do dia 17 de Junho, metade do ano se foi, metade de mim também. Um dia apenas que mudou a história de tanta gente. As pessoas me perguntam como eu vivi depois disso. O amor de minha família, meus amigos, minha namorada e agora mulher, o carinho dos fãs, todos geraram um escudo de proteção, me ampararam a todo momento. Acima de tudo, não perdi a fé. Busquei entender e aceitar. Dói. E muito.
Acontece que a vida me deu um presente lindo por dois anos e dez meses. Deus me deu a chance de viver intensamente, apaixonadamente do lado de meu filho. Um presente tão lindo que ele nasceu no dia dos pais! Num domingo em que miraculosamente estava sem show. Foi o dia dos pais mais lindo e marcante de minha vida!
Tive problemas, noites mal dormidas, estresses, nem tudo foi perfeito, me separei, mas Gabriel foi o norte de minha bússola. Inconscientemente fiz loucuras por ele. Loucuras estas que, tal como no discurso de Steve Jobs, hoje são pontos que ligados formam uma linda estrada que me fez chegar aqui. Como se, de alguma forma, eu também soubesse do que iria acontecer. E assim vivi tudo que queria ao seu lado. Hoje, sinto sua presença em minha alma, mas a saudade do futuro que deixamos de ter juntos me assalta. Graças a Deus, vivi este momento todo sem precisar tomar remédios - não quis, embora não tenha teimado quando o sofrimento foi maior.
Disse adeus a 2011 em um show na Barra da Tijuca, onde ele viveu feliz, e diante do mar que lhe levou em Porto Seguro. O show foi emoção do começo ao fim. A cada música, um filme, uma lembrança do que vivemos. Um adeus, um até breve.
Saber que ele não está mais aqui é importante para mim. Preciso sempre me lembrar disso. Aquele menino agora mora em meu peito e no meu pensamento.
Adeus, 2011. Dizem que 2012 é o fim do mundo. Não. Para mim, é o ano do renascimento.

Nossa árvore de Natal

Poucos dias após a morte de Gabriel, tocam a campainha. Era do Hortifruti. Eu tinha feito umas fotos com meu filho para uma matéria que sairia naquele mês na revista deles. Com sensibilidade, tiraram-na da revista em respeito ao meu luto. Me mandaram todas as fotos que tiramos juntos: um registro lindo e maravilhoso daquela manhã antes de ir pra creche. E me entregaram um vaso com lindas orquídeas brancas. As flores ficaram ali, perfumando o ambiente por muitos dias até se reduzir a um graveto. No entanto, continuamos a regá-la. E minha mãe pediu que Gabriel estivesse presente no Natal de alguma forma, pediu muito que a planta florisse novamente.
Em novembro, os primeiros botões apareceram, perto de meu aniversário. E seis meses depois de sua morte, seis flores se abriram. Natal quer dizer nascimento. E esta foi a nossa árvore. Linda, viva e emocionante.
Não foi um natal fácil, mas as orquídeas nos confortaram muito.